TOM POETA

Enquanto caminhamos pela longa, cansativa e sinuosa estrada da vida, pessoas, coisas, lugares e bichos vão tomando acento em nossa jornada. Isso talvez explique as partes do nosso Livro da Vida estar escrito a duas mãos, quando não por mãos e algumas patinhas de gato...

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Nos mudamos para Teresina no início de 2008. A casa, bastante grande e com uma enorme área verde, era o local ideal para conviver com a Natureza e com tudo o que há de mais celebrante nela: a vida!

Junto vieram conosco nossos familiares caninos: Tobe, Teca, Luna, Leopoldo, Argus e a sapeca da vira-lata Nega. Mas na Arca do Santolia também viajou nossa tartaruga Dra. Lúcia, que aliás passa dias desaparecida em nosso jardim, reaparecendo sempre que se esgota a safra de goiabas e de mangas, na busca por comidinha caseira.

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Na casa, invadida por uma alegria sem igual oferecida pelos bichinhos, fomos surpreendidos pela descoberta de um antigo morador, que certamente se recusou a desocupar o imóvel quando da saída dos últimos inquilinos. Hulk, um grande e imponente camaleão, dono de uma calda rápida, mutilante e impressionantemente longa, reina absoluto sobre o telhado de cobertura da nossa garagem. Vê-lo se defendendo do perigo é assistir a uma luta clássica de um espadachim. Movimenta sua calda na direção do inimigo com a mesma maestria dos grandes mestres de espada.

Na maior parte do tempo, imóvel sob um sol escaldante, exibe um verde que de tão intenso chama a atenção de todos pelos que passam pela rua de casa. Como somos uma família em comunhão com a Natureza, não oferecemos resistência alguma para aceitá-lo também na família.

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Tudo corria bem, como de costume. Nenhuma alteração se deu na família, até que um dia o inesperado aconteceu...

Em um fim de tarde de março, voltando a pé de uma visita à locadora de vídeos que fica há quatro quadras de casa, bem na esquina, percebi que estava sendo seguido. Diminui os passos e, em um repente, virei-me para trás a fim de surpreender quem quer que estivesse em minha perseguição. Me senti frustrado. Nada vi atrás de mim senão a rua longa e deserta.

Mas espera ai? Que miado é este? Olhei para baixo e lá estava ele, sentado, olhando para mim com familiaridade, como se já me conhecesse a muito tempo e comigo convivido. Magrelo e coberto por uma pelagem bonita, com manchas brancas e cinzas em várias tonalidades, o jovem gatinho tinha no olhar um pedido. Estava escrito em sua testa: me leva contigo?

Não deu outra. Fomos os dois juntos para a casa. Eu e o Tom...

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Passamos a dividir não só a mesma casa, os mesmos jardins, mas como também o mesmo quarto. Muito brincalhão e divertido Tom passou a ser o Dono do Pedaço, a última cocada do tabuleiro, o centro de todas as atenções por parte de todos. Evanne, Pablo e Antonio Neto, no início, passavam a maior parte do tempo vendo e dengando o todo serelepe Tom.

As semanas foram se passando e Tom, tendo no cardápio sempre peixe com salmão, começou a tomar corpo de rapaz e até em sua voz era perceptível a mudança. Definitivamente Tom atingia a puberdade felina. A situação requeria de nós a busca por uma companheira para o reisinho do lar.

Enquanto procurávamos por uma gata que fosse ao gosto do freguês, uma outra preocupação me perturbava: o medo fazia de Tom o mais covarde de todos os gatos que conheci...

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Tom não tolerava sequer a idéia de descer do primeiro pavimento, onde ficam localizados os quartos da família, até as salas de baixo. Separadas dos jardins por enormes paredes de vidro, a imagem dos seis cachorros lá fora, latindo enfurecidos para o gatinho do lado de dentro, não só ouriçavam os pelos do Tom como estes pareciam que iam largar de seu corpo e grudar como dardos no teto da casa. Era de fazer pena, mas a situação tinha que ter solução.

Passei a levar Tom para o lado de fora, a fim dele perceber que perto de mim, e sob meus comandos severos, nenhum mal lhe aconteceria, que nenhum dos cachorros ousaria sequer latir para ele. Mas todas as vezes que o levava para o quintal, além de cravar suas unhas em mim, antes que eu pudesse exibir para ele o meu controle absoluto sobre os cães, Tom já estava na copa de uma das árvores, a muitos e muitos metros do chão. Ele era tão rápido que me fez imaginar se o Tom não era o Gato de Botas, mas tendo asas também...

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Mas não desisti. Continuei levando Tom, mesmo sob fortes e doloridos protestos, para a sala e de lá para o quintal. Primeiro ele começou a procurar galhos mais baixos e não mais as altas copas. Achei aquilo um sinal de melhora. Depois já nem exibia mais seus dotes de gato alpinista. Começou a se esconder por de trás de jarros e moitas. Pensei comigo: ele vai acabar cavalgando agarrado no lombo dos cachorros. E sabe que andei perto de estar certo? Ele nunca cavalgou, mas hoje circula a casa toda ignorando e sendo ignorado pelos cães. Sua vitória sobre o medo rendeu-lhe um prêmio de olhos azuis e pele branca como a neve. Mel, uma gata também inaugurando a puberdade, chegou em casa detonando com o coração do Tom, que caiu em suas patas com a cauda revirada em paixão. Tão avassalador romance não poderia ter final diferente. Mel deu à luz quatro lindos gatinhos...

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Desde este evento recente de sua paternidade que Tom passou a manifestar-se de forma diferente. Os antigos miados por todos conhecidos, pois há um para cada tipo de vontade ou emoção, Tom inaugurou algo novo no repertório. E era diferente de todos os miados que ele já emitiu, aliás trata-se de uma nova forma de comunicação felina. Tom, com maestria e não menos melodia, balbucia palavras as mais diversas, num idioma que não é o nosso, mas em um idioma com convicção.

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Ele emite, com uma forte expressão de alma, poemas os mais belos cujos significados e significantes deixa Tom ao bel prazer de nossa própria criação. Cabe a nós interpretá-los, pois são conversas longas travadas por ele enquanto nos olha mergulhado em seus pensamentos.

Tom. Este é o nome do meu Gato Poeta.

Tom Poeta!

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